Análise – Metal Gear Solid é um jogo muito à frente de seu tempo

Análise – Metal Gear Solid é um jogo muito à frente de seu tempo

5 de Novembro, 2020 2 Por Allan Lima

Nessa análise não vou dar nenhum tipo de spoiler, pois apesar de ser um jogo com mais de 20 anos de idade, acredito que há toda uma geração que ainda não teve oportunidade de experimentá-lo e se este é seu caso, leia esta análise para entender o porquê deve jogá-lo. 

Se hoje você é fã de jogos como Splinter Cell, Hitman e Assassin’s Creed, sem sombra de dúvida deve a Metal Gear Solid os devidos agradecimentos, já que este ajudou a estabelecer de vez o gênero Stealth, revolucionando o mundo dos games com sua história, criatividade e pioneirismo. Um jogo obrigatório para qualquer fã do gênero, e pra qualquer um que ame videogames. 

O criador da criatura 

É impossível falar de Metal Gear sem falar de seu criador, Hideo Kojima. O famoso designer de jogos criou uma obra que acabou por se tornar indissociável ao seu nome, afinal metal gear revolucionou não só o gênero stealth, mas a indústria dos games como um todo. 

Hideo Kojima nasceu no dia 24 de agosto de 1963, e foi o caçula de três irmãos. Sua família se reunia todas as noites para assistir filmes, o que acabou fazendo com que ele se tornasse um grande fã da sétima arte, e desejou desde cedo que sua vida profissional seguisse nessa direção. Infelizmente, aos 13 anos de idade Kojima perdeu seu pai, o que deixou sua família em uma difícil situação financeira e fez com que ele tivesse que se virar sozinho desde muito cedo.  

Enquanto estudava economia na faculdade, Kojima escrevia histórias com mais de 400 páginas para revistas do Japão, porém estas acabavam rejeitadas pois as revistas da época estavam interessadas em apenas 100 páginas. Ao entrar na indústria dos games (para a surpresa de todos a sua volta que sempre o viram como um diretor de cinema) esse megalomanismo se mostrou presente na face criativa de Kojima e ajudou a dar vida a saga Metal Gear Solid como a conhecemos hoje, especialmente uma de suas características mais marcantes: Seu enredo. 

A história 

Embora considerado por muitos o primeiro jogo da saga, Metal Gear Solid é uma sequência direta dos primeiros jogos, Metal GearMetal gear 2: Solid Snake ambos lançados para o NES. No ano de 2005, 5 anos após os eventos do segundo jogo, a ilha de Shadow Moses é tomada por membros da FOXHOUND e da Next-Generation Special Forces, liderados por Liquid Snake. O objetivo é o sequestro de uma arma nuclear chamada Metal Gear Rex, um robô bípede gigante com capacidade de lançar um ataque nuclear em qualquer parte do planeta. A demanda são os restos mortais de Big Boss, o maior soldado que já existiu, para que através deste, possam usar seu código genético para criar super soldados. Com o mundo em risco diante de tal ameaça, o governo convoca o secretário de defesa e antigo comandante da Fox Hound, Roy Campbel. Ele chama Solid Snake, que estava aposentado para uma última operação solo. 

A história é complexa, e marcada por diversas reviravoltas, os famosos “plot twists” que acabaram virando uma marca registrada de Kojima e da Saga Metal Gear. Seu tema central faz questionamentos ao jogador, tais como:  

Nosso destino está atrelado ao nosso genoma ou somos nós mesmo que fazemos quem somos e o que alcançamos? Pelo que um soldado luta? Qual o sentido da guerra? 

Essas perguntas são feitas intrinsecamente, ao passo em que acaba tocando em outros pontos também, como amor e perda, coisas que Hideo Kojima conhece bem e passou isso para o seu jogo. Aliás, o pai do Kojima era um grande admirador dos soldados, mas odiava a guerra e chegou a mostrar alguns filmes com a temática para seu filho, que carregou os questionamentos até hoje como podemos ver em vários jogos da saga, especialmente através da personalidade de Snake. 

Personagens 

Uma boa história só é possível quando junto a ela há bons personagens e esse certamente é o caso de Metal Gear Solid. Desde os coadjuvantes até os vilões, todos tem seu papel bem definido na trama. 

O protagonista, Snake, é o típico anti-herói “lobo solitário” que a princípio soa clichê, mas através de diálogos bem construídos ganha personalidade com traços mais humanos, resultando em uma mescla interessante entre protagonista de filme americano com um homem comum. 

Por fim, vale destacar também o trabalho dos dubladores, pois não só foram escolhidos a dedo com vozes que se encaixam perfeitamente em cada personagem, como possuem um nível de atuação muito acima da média pra época, dando um ar cinematográfico ao jogo em uma época aonde isso ainda não era comum. 

A forma que é contada 

O fato de Kojima ser tão apaixonado por cinema tem um papel fundamental em como ele escolheu contar essa história. Primeiramente temos o Codec, uma espécie de rádio implantado em Snake para que ele possa se comunicar com sua equipe, o jogo permite que você contate qualquer um deles a qualquer momento usando frequências e também que você atenda as ligações recebidas, então uma tela com o rosto dos personagens se abre e a comunicação se dá por voz enquanto legendas se mostram na tela. Metal gear Solid não inventou a comunicação por voz e muito menos por texto, mas o jogo pega esses dois elementos e o implementa de maneira que se integre a temática do jogo, isso somado a quebras constantes da 4ª parede em diálogos bem construídos, faz com que tenhamos uma imersão que poucos jogos da época conseguiram alcançar. 

Em segundo lugar, temos as tomadas de câmeras e cutscenes in-game, que ao invés de fazer uso das CGI’s comuns à época, usa os gráficos do próprio jogo para dar continuidade a cena, com scripts inovadores e tomadas excelentes. É impressionante como isso dá um ar cinematográfico ao jogo mesmo com os gráficos extremamente limitados desse início da era 3d. 

Uma trilha sonora memorável 

Outro elemento indispensável para uma grande obra, a trilha sonora de Metal Gear Solid é seguramente uma das mais memoráveis de toda a história dos games. Com um feeling eletrônico e um ritmo crescente em momentos de ação, orquestras em cutscenes e tons pontuais em ambientes quietos e tensos; toda a implementação da música no jogo dá um clima perfeito e enriquece a experiência. Destaque para a música das Boss Fights, que até hoje pode ser considerada uma das melhores já feitas para o momento. 

Os gráficos 

É injusto avaliar esse elemento de um jogo que foi lançado a mais de 20 anos atrás, em uma era que os jogos 3d estavam começando a decolar e possuíam toda uma defasagem em detrimento das limitações de Hardware. Mas dentro desse contexto, os gráficos de Metal Gear Solid são bem competentes, e muito disso se deve as escolhas artísticas, que brilham mesmo através dos gráficos pixelados e de baixa resolução. Com uma paleta de cores escura, o jogo retrata muito bem o feeling militar e sci-fi que Kojima quis passar, além de possuir bons efeitos de vidros quebrando, explosões e pequenos detalhes como a fumaça do cigarro de Snake e reflexos na água, por exemplo. Dado toda a complexidade de gameplay que falaremos adiante e levando em consideração que o jogo roda em um Hardware com 33 mhz de CPU e 2 MB RAM (!), podemos dizer que os gráficos de Metal Gear Solid é um feito técnico impressionante. 

O Gameplay 

No jogo, você tem como objetivo passar desapercebido por uma base cheia de inimigos, câmeras de vigilância, armadilhas e outras coisas mais. Para isso, o jogo permite que você se rasteje para baixo de carros e tubulações, se escore em paredes, corra, use seu próprios punhos e claro, uma gama de itens e apetrechos que não deve nada a qualquer espião de hollywood.  

O jogo faz uso de uma visão semi-isométrica, digo semi pois é uma câmera mais aproximada e com variações a depender de onde você se posiciona, além de fazer uso de um botão específico para utilizar uma câmera em primeira pessoa. Esse é um ponto negativo do jogo, pois é muito complicado não poder enxegar com clareza o que está a sua frente em momentos aonde ações rápidas necessitam ser tomadas, e isso custa muitos alertas inimigos. A jogabilidade também não envelheceu bem, majoritariamente por conta de limitações de hardware da época, pois muitas vezes o jogo acaba exigindo uma precisão que simplesmente não era possível, principalmente usando o direcional do controle. 

O grande trunfo de Metal Gear Solid se encontra na criatativade quase ilimitada com que lida com seu gameplay, tornando o jogo extremamente divertido mesmo jogando hoje em dia, mais de 20 anos após o seu lançamento. É impressionante a gama de opções oferecidas ao jogador para que passe por uma determinada situação, além de uma atenção aos detalhes sem igual à época. Você pode usar uma caixa para se esconder dos guardas, porém, se a caixa não for adequada ao ambiente o guarda irá desconfiar; você pode utilizar granadas que soltam uma espécie de frequência que confunde equipamentos eletrônicos para desabilitar temporariamente câmeras de vigilâncias, ou pode simplesmente passar embaixo no ponto cego da mesma; esses são apenas alguns exemplos do papel desses detalhes e dessa criatividade no gameplay. 

Os cenários favorecem os elementos de Stealth ao passo em que soam naturais para o ambiente militar a que se propõe. E claro, não posso deixar de mencionar as memoráveis Boss Fights, que são cheias de ação e emocionantes, com a dificuldade num ponto certo e um feeling de filme que as tornam extremamente empolgantes.

Por último, vale mencionar a quebra da 4ª parede, que não se limita apenas aos diálogos do Codec, mas também se faz presente em diversos momentos de gameplay ao longo do jogo, os quais não vou spoilar pra quem ainda não experimentou, mas que posso dizer que só adiciona um tempero à toda grandiosidade de Metal Gear Solid. 

Conclusão 

Diante de toda as limitações da época, podemos dizer que Hideo Kojima entregou uma obra prima obrigatória para qualquer amante dos video games e que viverá eternamente como um clássico absoluto que sempre esteve muito à frente de seu tempo.