Análise (Review) de Hyperdimension Neptunia – as origens obscuras da franquia

Análise (Review) de Hyperdimension Neptunia – as origens obscuras da franquia

27 de Julho, 2022 0 Por Razzee
Ficha do jogo:
Data de lançamento original: 19 de agosto de 2010 (JP)
Gênero: RPG
Jogadores: um jogador
Desenvolvedoras: Idea Factory, Compile Heart
Publicadoras: Compile Heart (JP), NIS America (NA), Koei Tecmo (EU)
Plataformas: PlayStation 3

O meu primeiro artigo neste site foi referente a uma análise de Trinity Universe (que você pode conferir aqui), que foi, de diversas formas, o precursor do título desta, portanto seria inevitável abordá-lo eventualmente.

Hyperdimension Neptunia foi trazido para o Ocidente pela NIS America em 14 de fevereiro de 2011, e similarmente, permanente atrelado à sua plataforma original de lançamento (além de um título disc-only), PlayStation 3, uma vez que também foi desenvolvido com base na Phyre Engine, criada pela Sony especialmente para usufruir do máximo da plataforma, que nunca foi amigável para programadores.

Desta vez, companhias como Gust e Nippon Ichi Software continuam envolvidas, mas por meio de personagens que as retratam dentro do jogo, e a Compile Heart assume o papel de desenvolvedora por conta própria, fazendo uso de muitos assets que estiveram presentes em seu antecessor. Não mais seguindo o conceito de crossover com estória sem pé nem cabeça digna de anime, o jogo retrata de sua forma original a guerra de consoles, que ocorre no universo de Gamindustri (Indústria dos Jogos), que é dividida em quatro regiões: Planeptune (SEGA Neptune), Lastation (Sony PlayStation), Lowee (Nintendo Wii) e Leanbox (Microsoft Xbox). Cada região apresenta uma temática diferente e glorifica sua própria deusa, a Console Patron Unit, ou CPU.

Trailer ocidental de lançamento

O jogo foi bem recebido no Japão, mas o mesmo não pode ser dito de sua recepção no Ocidente, com notas tão baixas quanto 2 de 10 e reclamações que adereçam o design de personagens “sensual demais”, sistema de combate confuso, trilha sonora… Basicamente, o único em elemento em comum a escapar da crítica é o conceito, a ideia original de retratar as Console Wars com garotas de anime. Apesar de Hyperdimension Neptunia ter culminado em uma extensa franquia, disponível hoje em todas as plataformas e conhecida por quaisquer fãs do gênero, suas origens passaram pelo caminho das pedras para chegar ao nível de hoje. Apesar da crítica ter fundamento, pretendo por meio desta ressaltar seus pontos positivos que podem ter passado despercebidos e, claro, os negativos.

New Game adentro, o jogador assume o controle da protagonista dos protagonistas Neptune, uma das quatro deusas envolvidas na série de conflitos que é o foco da história do jogo, as Console Wars. Após ser derrotada em uma injusta batalha de três contra uma, ela perde a consciência. Ao acordar, se encontra na casa de Compa, que a acolheu de seu local de aterrissagem não planejada, desprovida de suas memórias, o que as levam a crer que Neptune sofre de amnesia. Como ela está involuntariamente se abstendo de sua função como CPU, monstros correm à solta por Planeptune, suscitando o início de sua aventura em busca de suas memórias, fazendo muitas aliadas ao longo do caminho, como IF, Nisa, Gust entre outras… e até mesmo Leon de Resident Evil, por que não?

Hyperdimension Neptunia adota um sistema de combate muito similar ao de Trinity Universe, mas surpreendentemente piorado, por conta da quantidade de customizações e combos possíveis, que o jogador médio possivelmente jamais se incomodaria em fazer uso de. Durante a batalha, o turno atual é destacado no canto superior direito, assim como os turnos vindouros. No turno de Neptune e outras personagens jogáveis, uma barra de AP (Ability Points) define quantas ações o jogador pode performar, divididas em ataques com Espadas, com Armas e ataques Físicos, além de uma quarta opção que coloca a personagem em posição de Defesa. Cada inimigo tem uma barra de Guarda (GP), que deve ser quebrada para receber dano à sua barra de Vida (HP). O Game Disc System presente em títulos posteriores, não poderia ficar de fora, que permite a Neptune e companheiras a desencadear combos e habilidades poderosas, incluindo invocar personagens clássicos dos vídeo games, como Alex Kidd da SEGA. Pode soar interessante, mas obrigar o jogador a criar os combos contendo todas as ações essenciais, desde ataques básicos a habilitar HDD (Hard Drive Divinity) é um processo maçante e monótono. Eu particularmente não me senti motivado a criar novos combos se um utilizado desde o início do jogo tem funcionado bem. A pá de cal é prender o uso de itens por trás de um sistema de probabilidade. Ou seja, talvez você se cure ou anule um efeito negativo neste turno. Não faz sentido, não é mesmo? Na minha opinião, deveriam ter mantido o simplório e divertido hack n’ slash de Trinity Universe intocado.

A questão do sistema de combate à parte, a forma de navegar pelas dungeons e engatilhar o encontro com inimigos ocorre da mesma forma que em Trinity Universe, com uma batalha a cada determinado número de passos dados. Esse é o estilo que predomina nos títulos de RPG clássicos até a era do PlayStation 2, mas que fora descartado a partir de Hyperdimension Neptunia mk2, onde os inimigos são vistos caminhando pela dungeon. É de certa forma incômodo pois às vezes você é forte demais para os inimigos de determinada área, e mesmo assim se vê obrigado a batalhar, por mais que não exista o desafio. O jogo requer pouco grind por parte do jogador mas, quando necessário, é só usar e abusar dos ínfames “Cliones”, que são chefes de dungeons e recompensam o jogador com uma farta quantia de experiência. O jogo conta com uma ampla customização de habilidades, mas com pouco tempo de jogo você consegue perceber que spammando as mesmas três no decorrer do jogo é suficiente para prosseguir.

Não há muito o que exaltar em termos de gráficos, mas mesmo assim o jogo apresenta uma performance bem aquém do esperado, sendo recomendado por jogadores alterar a resolução do PlayStation 3 para 720p, a fim de atingir uma performance aceitável. Isso é muito estranho de acontecer, uma vez que o jogo também faz uso da Phyre Engine, um motor proprietário criado pela Sony especificamente para o sistema. A modelagem 3D das personagens é convincente (ao contrário dos bonecos de cera em TU) e pouco deixa a desejar em relação a títulos mais recentes como Megadimension Neptunia VII. Felizmente, o jogo resgatou de seu antecessor o charmoso “Active Animation Adventure”, uma característica notável de todos os títulos da Idea Factory dentro do gênero visual novel, e que eu falo um pouco mais sobre na review de Trinity Universe. Os símbolos expressivos que ocorrem durante os diálogos na parte visual novel do jogo, tais como “?”, “!” e outros mais específicos que transmitem a ideia de tristeza, surpresa etc são maiores e mais exagerados, o que considero positivo e por esbanjar espontaneidade criativa.

Os inimigos aqui são originais, e aparecem em outros títulos da franquia, o que é compreensível. O que pode fugir de um olhar um pouco mais aguçado é a reciclagem de muitos planos de fundo 2D, que foram utilizados em outros jogos da desenvolvedora, como Record of Agarest War. Para uma desenvolvedora que costuma investir na parte visual, abrindo mão da parte técnica, isso me deixou um pouco decepcionado. Os sprites das personagens, novamente, são concebidos pela talentosa ilustradora Tsunako.

Agora falando da parte sonora, embora redatores profissionais não tenham mensurado a crítica negativa neste ponto, eu considero este título como o portador da melhor trilha sonora da franquia, e minha faixa favorita não poderia ser outra além de “Lastation Theme” (ouvi repetidas vezes na academia), mas gosto de muitas outras como “Lastation Rising“, “White Heart Battle Theme” entre outras, incluindo a clássica música de abertura (que retorna em Re;Birth1), é claro. Como costumeiro, algumas faixas são remixagens de outras, mas isso faz parte do ofício de um compositor, que no caso deste jogo e outros da Compile Heart tem sido Kenji Kaneko, um indivíduo de muito bom gosto musical. A dublagem japonesa compreende todas as linhas de diálogo importantes do jogo, salvo alguns eventos secundários. Como não cheguei a rejogar com a dublagem americana, não sei quanto investimento foi feito pela NIS America.

O departamento técnico, vide spoiler que dei em outro parágrafo, deixa a desejar, pois o jogo tem loadings longos e sofre de stuttering em resolução 1080p, que é a nativa. Isso pode ser amenizado diminuindo para 720p. Embora agora possamos acessar a galeria de ilustrações sem receio de travar o sistema, o problema da vez é checar os rankings das dungeons enquanto conectado à Internet, o que leva o jogo a travar.

Conclusão

Hyperdimension Neptunia trouxe uma temática muitíssimo interessante, que foi a de representar as Console Wars por meio de personagens no estilo anime e humor bem mais espontâneo que visto em títulos mais recentes da franquia. Em nenhum outro jogo você verá IF sugerindo que alguém está menstruando, lhe garanto. A estória tem um tom bem mais “dark” e, infelizmente, é contada de forma mais arrastada do que a de Re;Birth1, seu remake. Avançar na estória consiste basicamente em entrar numa dungeon, abater alguns inimigos, chegar ao final dela e desbloquear a sequência de cutscenes. É bem lackluster nesse sentido. Sofreu muitos downgrades em relação ao jogo que o precedeu, o que resulta num sistema de combate e customização de combos desnecessáriamente confuso e de lenta adaptação. Do mesmo modo que em Trinity Universe, falta a sensação de que estamos num mundo habitado por outros personagens além dos jogáveis, pois são poucos que aparecem em cutscenes, e não temos um hub colorido repleto de avatares falantes e alegres.

Veredito

Enfim, foi o jogo que pavimentou o caminho para uma franquia que hoje conta com diversos títulos principais e spin-offs e, por conta de ser o pioneiro, carece de muitos recursos essenciais presentes nos subsequentes, o que é de se esperar. Apesar de Hyperdimension Neptunia já ter recebido há alguns anos um remake, Hyperdimension Neptunia Re;Birth1, que é certamente muito mais acessível e engraçado, o original conta a estória sob um diferente ponto de vista, com uma temática mais dark, já que não foi desenvolvido esperando-se que teria uma sequência. Sugiro que todos os fãs da franquia que não tiverem checado o original, e forem capazes de encontrar uma cópia física, ou método alternativo de rodar o jogo, que o façam. Aos jogadores de RPG que ainda não foram introduzidos à franquia, ou não são familiarizados com o gênero, é recomendado jogar seu remake antes de partir para o original, por sua interface amigável e portar a engine moderna de Hyperdimension Neptunia Victory, além de contar a estória de uma forma menos robótica e mais simples de acompanhar.

Nota: 7/10

Jogo analisado em julho de 2019 com uma cópia física obtida legalmente.